terça-feira, 21 de abril de 2015

Dias de Bon Vivant


São Paulo, 26 de janeiro de 2011.

Como é fácil acostumar-se com o que é bom não é verdade? Foi simples estabelecer uma rotina com minha volta para casa. Saia todas as noites para caçar. Tive que me virar para estabelecer um outro modus operandi. É mais fácil para um vampiro caçar entre os góticos, eles são fascinados pelo nosso mundo e acabam caindo na teia de livre e espontânea vontade. Alphaville não é bem um reduto de garotas pálidas e vestidas no bom e sexy estilo Gotic Doll. O que eu mais via eram ratas de academia, patricinhas vestidas na ultima moda. Não era algo que me incentivava,na verdade sempre odiei as pattys..são insossas, cabelo sempre em ordem, roupa sempre em ordem..tudo muito em ordem para o meu gosto. Mas como é necessário para um vampiro comer e como por aqui não tinha nada além de comida macrobiótica tive que me adaptar. Tornei-me então o gostosão da academia. Muito engraçado isso na verdade. Até pouco tempo atrás eu seria literalmente ignorado e agora as garotas chegavam a brigar por minha causa. Eu tinha um imenso estoque de comida politicamente correta e congelada à minha disposição.
Pouco via meus pais, depois do incidente do sequestro viajaram para a Europa. Não estarem em casa não era novidade nem para mim nem para ninguém. A única coisa que tinha mudado é que ganhei uma moto e tive meu cartão de crédito restabelecido e sem limite. Uau!!! O velho foi generoso comigo, quase chorei de tanta emoção. Maldito..pensava que todos tinham preço, inclusive eu. Mas quer saber? Iria aproveitar a generosidade ao máximo.
Dias atrás estava sem nada para fazer e sem vontade de ir até a minha geladeira particular, não tava mesmo a fim de nenhuma patricinha..tinha saudades das gurias maquiadas e pálidas do Madame,quem sabe se eu desse uma voltinha por lá. Clara tinha me avisado que não queria voltar a me ver, mas não tinha me proibido de caçar no Madame e também se tivesse feito isso eu não obedeceria. De regras já chegavam as que tive de obedecer enquanto vivo e as que meu pai sempre me impôs.
- Vai sair Henrique? Yuri apareceu na porta – Que pergunta a minha né..é claro que vai sair. Posso ir junto? Me leva vai..só uma vez, juro que fico longe. Nem vou dar trabalho.
- Lá não entram menores Yuri, fica para uma próxima ok?
- Não preciso nem entrar..quero ficar só na porta. Cara isso aqui tá um tédio mortal, tõ de saco cheio de jogar e minha galera foi viajar, vai..deixa eu ir, juro que não vou atrapalhar.
Bom..não haveria mal nenhum em leva-lo. Ele ficaria lá fora..no bar, eu entraria, me alimentaria e pronto..poderíamos curtir um pouco no centro ou voltar para casa.
- Tá bom Yuri, vai se trocar que eu te espero. Hoje você vai junto comigo.
Se minha mãe soubesse que tinha levado Yuri no Madame teria um de seus surtos teatrais. Mas estava viajando e a Tiana não diria nada. Ela estava acostumada com minhas saídas e não via nada demais no fato de eu sair com meu irmão. Só implicava com o fato de eu sair sempre sem jantar.
Na garagem fiquei pensando se ia de moto ou de carro. Agora podia escolher..meu pai tinha liberado, também, o painel com as chaves. Olha só..eu tinha desde uma Ferrari a uma Mercedes SLK na minha mão..fora a minha moto é claro. Uma Harley. Falando em moto, juro que devolvi a que roubei na Praça da República. Pedi para um dos capangas, digo, seguranças do meu pai, leva-la até lá, orientei exatamente sobre o lugar onde ela estava. O dono deve ter ficado feliz. Decidi que ir de moto seria melhor. Muito mais rápido.
Com Yuri na garupa, rumei para o Madame. Gostava de lá. Tinha sido o primeiro lugar que eu frequentara e o lugar onde caçara pela primeira vez. Parei a moto em frente do outro lado da rua e dei uma olhada na fila. Clara não estava lá..fiquei aliviado,não queria nenhum conflito direto.
- Olha Yuri, fica aí..senta, pede um refrigerante e me espera. Volto logo ok?
- Refrigerante? - Não rola um vinhozinho não?
- Nem pensar moleque, é refrigerante pra você, não ouse pedir vinho porque vou descobrir e você tá lascado.
Dei um “croque” na cabeça dele e saí dando risada. Era muito bom ter meu irmão por perto. Me dava a sensação de família, de intimidade e eu gostava disso.
Fiquei na fila observando, escolhendo o melhor prato. Ah...daquilo eu gostava! Eram todas muito apetecíveis ao meu paladar. Tão diferente da minha comida congelada. Anotem aí..góticas são as melhores. Depois vem as bangers..são legais também. Só não queiram experimentar as pattys, não tem tempero algum..você quase tem que levar catchup e mostarda pro negócio ficar um pouco melhor.
Escolhi uma mestiça. Era linda mesmo. Cinta-liga! Eu piro em cinta-liga! E piro mais ainda em pernas bem torneadas. Tá achando estranho? Sou um vampiro, mas sou homem antes disso né? Tenho meus gostos bem definidos. Acho que isso nunca vai mudar. E viva o mundo das Gotic Dolls.
Estava “em casa” e o melhor..nem sinal da Clara. Meu “prato” estava lá..prontinho...ansioso pela minha aproximação..pude perceber pela aceleração do pulso da garota quando sorri para ela. Não seria nada difícil, talvez eu nem precisasse hipnotiza-la afinal de contas...Que ideia idiota a minha, é claro que a hipnose seria necessária. Regra número 1 – mantenha-se sempre incógnito, não importa o que acontecer.
Passei por ela em direção ao bar, dei uma olhada e sorri. Isca lançada. Peguei uma cerveja e fiquei lá no balcão, só olhando para a garota. O olhar de um vampiro pode causar dois efeitos em sua vítima: ou sentem-se observados e incomodados ou então excitados. Não existem muitas variações. No caso da mestiça, ela estava evidentemente, excitada. Pulsação acelerada e o doce aroma de mulher. Isso impregna o ar. Uma pena que vocês mortais tenham perdido a capacidade de detectar o real aroma de uma mulher. É algo incrível, altamente afrodisíaco se querem mesmo saber. Se meu irmão não estivesse me esperando fora do Madame, eu teria tido um imenso prazer em arrastar a situação pelo máximo de tempo, mas como tinha prometido voltar logo, me apressei em caçar o mais rápido que pude.
Cheguei perto da garota e sussurrei em seu ouvido – Me siga! Os comandos mentais funcionam muito melhor quando a vítima está predisposta. É por isso que gastamos um tempo no jogo da sedução. Me dirigi, então a um nicho que fica no jardim. É como uma tenda onde os casais podem desfrutar um pouco mais de intimidade. Assim que a mestiça chegou, não perdi tempo. Passei a beija-la, provando a doçura daqueles lábios, me deliciando com o sabor oriental. Sim..cada mulher tem seu cheiro, seu sabor, nenhuma é igual a outra..todas tem uma assinatura própria e eu estava me tornando um verdadeiro somelier, nesta arte. Dei a ela bons momentos e antes de mordê-la, expedi o comando que sempre usava. Não esqueceria o antes..eu me tornaria uma constante em seus sonhos. Faço isso porque gosto de voltar a degustar os pratos que já provei. É um costume meu. Ah..que sangue doce! Que bouquet maravilhoso. Estava tão entretido que não percebi que a cortina se abriu e alguém nos observava. Era um cara e ele olhava para mim sorrindo divertido, como se não estranhasse minhas atitudes. Fez um gesto com a mão, uma espécie de cumprimento. Fechou a cortina e saiu.
Merda!! Eu nunca tinha sido pego assim no flagra e quem era aquele cara afinal de contas. Larguei a mestiça e antes tive o cuidado de fechar a ferida no pescoço. Queria prolongar um pouco mais o prazer dela, mas agora teria que ir atrás dele. No jardim não estava, nem na pista. Subi as escadas e o procurei no salão. Foi quando senti uma mão no meu ombro.
- Excelente meu caro, apreciei deveras seu método. Faz muito tempo que não vejo ninguém caçar com tanto requinte. Está de parabéns.
- Quem é você? Aquela mão no meu ombro não me agradou, mas não poderia protagonizar nenhuma cena ali dentro.
- Ah..que falta de educação a minha. Meu nome é Maurício – prazer em conhecê-lo. Mas diga-me..o que faz caçando em meu território? Não sabe que isso é proibido?
Território dele? Como assim? Aquela região central pertencia à Clara e de uma certa forma, a mim também.
- Até onde eu sei, essa região é da Clara.
- Era..meu caro, era do verbo não é mais! Clara foi embora há uma semana, portanto isso tudo agora é meu, porém tenho algumas novidades para você.
- Que novidades? Do que você está falando? Nem sabe que sou eu.
- Tão inocente...ah..o frescor da juventude..tenho saudades disso às vezes sabia? Senta aqui garoto – apontou para uma cadeira – me escute porque não tenho por hábito ficar me repetindo certo? Não sei o que a imbecil da Clara te ensinou, mas pelo visto não foi muita coisa. Cada um de nós pertence a essa maldita sociedade, ninguém aqui é realmente livre. Existem os que mandam e existem os que obedecem. Você e eu somos do tipo que obedecem ok? A grande novidade é que os lá de cima querem falar com você. Sendo cria da Clara você ganhou notoriedade. Ninguém esperava que ela fosse criar alguém, na verdade todos pensávamos que ela não pudesse, por conta da forma como ela própria “nasceu”. Agora estão te chamando aos círculos internos. Deveria sentir-se envaidecido por isso. Ganhou na loteria sem ter, ao menos jogado. Agora por favor, retire-se da minha casa e, se possível não volte mais. Não gosto de dividir nada com ninguém, mas no seu caso, se decidir voltar,  serei obrigado a fazer concessões.
Sai do madame meio desnorteado. Muita informação em pouco tempo. Que diabos significava o tal “circulo interno”? Teria de descobrir. No dia seguinte iria procurar o Moacir, ele, com certeza saberia me explicar o que estava ocorrendo.
Do outro lado da rua, sentada junto ao meu irmão, vi uma loira do tipo “Vim parar o trânsito”. Ela acariciava o pescoço de Yuri com olhos gulosos demais para o meu gosto. Atravessei a rua rápido e me aproximei da mesa onde os dois estavam. Não tive dúvida das intenções da garota ao reparar em seus olhos. Era uma vampira e meu irmão seria a “entrada” para o prato principal.
- Caí fora já! - ameacei pronto para uma briga se fosse necessário.
- E se eu não quiser sair? Vai me obrigar? - estava na cara que era uma novata, muito mais novata do que eu!
- Vou sim, não tenha dúvidas quanto a isso. Aproveita que ainda estou de bom humor e caí fora daqui – avermelhei os olhos por uma fração de segundos e ela logo entendeu. Saiu xingando, dizendo que iria se vingar, que eu não perdesse por esperar.


Quase tive de esbofetar o Yuri para tira-lo do transe. Que merda. No tempo da Clara não era permitido caçar fora do Madame. O tal do Mauricio iria transformar aquela área em um ninho, um ninho de víboras que iriam pica-lo assim que pudessem, mas ele que se danasse. Tratei de tirar meu irmão de lá o mais rápido possível. O mais engraçado era olhar para a cara de bobo sorridente que ele estava fazendo. Difícil conter o riso nestas circunstâncias. Acho que o garoto vai  se lembrar da noite por uns bons tempos ainda.

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