terça-feira, 5 de maio de 2015

Alexia




São Paulo, 10 de abril de 2011




Não vou negar que “notoriedade” abre algumas portas. Por conta dela, pude entrar em territórios que até então me eram proibidos e também conhecer muitas e singulares criaturas. O mundo dos vampiros, no geral, não difere muito do mundo dos “mortais”, aos poucos perdemos os conceitos de moral e bons costumes, mas guardamos coisas que nos prendem ao mundo dos viventes. Conheci, então, vampiros depressivos, filósofos, agressivos, psicopatas..enfim uma variedade bem grande de cores e tamanhos.
Em muitas dessas 'incursões” meu irmão tem sido minha companhia frequente. Gosto de estar com o Yuri e ouvir suas opiniões a respeito de coisas que ele vê com mais clareza do que eu. O frio e sórdido jogo da política que norteia as relações vampíricas tanto quanto norteia as relações humanas, as trocas de favores, a ambição, a cobiça, a inveja..tudo isso é muito mais palpável neste meu mundo. Há que se ter imenso jogo de cintura para entrar e sair dos buracos dos ratos sem ser mordido por eles.
Voltei ao Madame só para sentir o gosto de impor minha presença ao Maurício. Gostei de ver a cara de contrariedade daquele idiota enquanto me recebia como se fossemos amigos de infância. Por conta desta minha nova condição de “celebridade”, a entrada do meu irmão foi permitida. Fiquei então sabendo que muitos humanos sabem da nossa existência e compactuam com nosso estilo de vida. Então o Madame era de fato um curral onde o gado pastava calmamente apenas esperando que chegássemos e nos servíssemos. Naquela noite em específico, não estava ali para caçar exatamente, queria aproveitar com o meu irmão, queria que ele conhecesse um pouco mais do meu mundo e o “Self Service” era, até então, a maior e melhor vitrine.
Não pegamos a fila..pudemos entrar sem “revista” e com passagem livre. Ah..como é bom ser VIP. Yuri olhava para tudo fascinado. Talvez nem tanto pelo ambiente em si, mas por estar fazendo parte de algo que ele considerava como sendo “proibido”.
Fomos em direção ao bar; passando por um grupo de garotas percebi uma em especial olhando para mim. Bonita..mas não obrigado, naquela noite não..quem sabe em outra oportunidade. Pedi um drinque para mim e uma cerveja para meu irmão..ele me olhou espantado e se apressou em pegar a bebida, temendo que eu mudasse de ideia.Nunca fui conservador ou moralista, mas cuidar do meu irmão e mante-lo longe de encrencas era tarefa que considerei sempre de suma importância. Ficamos bebendo e conversando por um bom tempo. Yuri parecia interessado na guria que não parava de olhar em nossa direção. Incentivei uma investida – Vai lá cara..ela tá olhando pra você!
 - Ah claro...claro..tá olhando pra mim né? Conta outra..mas quer saber..foda-se – e lá se foi meu irmão em busca de diversão.
E não é que ele levou a garota bem mais rápido do que eu pensava? Peraí..eu já tinha visto isso antes, conhecia o mecanismo. Não..não..meu irmão não era um vampiro..mas que diabos era aquela aura de atração animal? E porque eu nunca tinha percebido isso antes?
Não tive muito tempo para ficar pensando. Minha atenção foi desviada pela entrada de alguém. Aliás.não só a minha mas a da metade dos homens que estavam ali naquela noite.
Uau!! O que era aquilo? Ou melhor..quem era? Não conseguia desviar meus olhos da mulher que acabara de entrar. Sempre tive uma “despencada” por ruivas..mas ela, sem dúvida alguma, era uma visão de deixar qualquer um fora de órbita. Não somente pela aparência..mas pelo magnetismo. Cabelos de fogo..ah..que vontade que tive de enroscar minhas mãos naqueles cachos..pareciam tão macios..tão sedosos. A pele naturalmente pálida..olhos verdes..a boca..Ah..a boca era um capítulo à parte. Existem lábios que pedem para serem beijados..explorados..e ela tinha esse tipo de boca. Levemente arqueada..como se zombasse do desejo que despertava. Ruivas deveriam ser proibidas de saírem às ruas..deveriam ter porte de arma as malditas! A roupa deixava entrever a perfeição. Não estava vestida de forma espalhafatosa. Muito pelo contrário..até discreta..mas tudo nela era uma promessa. Calça preta e justa..uma singela camisa branca..um decote que deixava os pensamentos fluírem soltos..e o ponto alto: Um corselete. Ah..corselete e cinta-liga..minhas maiores perdições. Ah...e ela tinha sardas. Pequenas sardas espalhadas pelo rosto..o que lhe dava um ar juvenil. A maquiagem não era pesada..na verdade tudo muito natural. Naturalmente afrodisíaco..naturalmente arrasador.
Meus pés me levaram até ela. Em um minuto estava no bar tomando cerveja e no outro estava diante daquele monumento à loucura. Ela então sorriu pra mim e mergulhei naqueles olhos, era um mergulho no nada e sabia que poderia me afogar mas não tive escolha. Sem raciocínio, sem pensamentos, sem tempo e muito menos espaço. A puxei pela nuca e ela correspondeu em completo abandono, como se estivesse à minha espera por muito tempo. Seria um reencontro? Seria uma ilusão, uma espécie de miragem? O mundo deixou de existir, não ouvia mais o murmúrio das vozes dos frequentadores do Madame, não ouvia mais a música. A minha frente, somente ela, seu corpo que chamava por mim, suas mãos que deslizavam pelos meus braços, apertando, arranhando. Aquela boca deslizando pelo meu pescoço, causando sensações que pensei já ser imune. Estava sendo seduzido? Não..era mais do que simples sedução. Era loucura total e completa. Ela foi me empurrando para algum canto e não resisti..não poderia por mais que quisesse. Um dique havia se rompido dentro de mim e o animal que havia me tornado, clamava por liberdade. Minha camiseta foi rasgada e fiz o mesmo com a blusa dela. Pude ver a lingerie..delicada peça de renda que mal escondia os seios brancos e fartos. E que perfume...tudo foi rápido e ao mesmo tempo me pareceu durar séculos. Quando abri novamente os olhos ela ainda estava lá..me olhando em desafio. Percebi então um filete de sangue escorrendo de sua boca. Tinha me mordido? Ah..maldita! Uma vampira e eu não percebi! Que merda..e agora?
Passou a mão em suave carícia pelo meu rosto, um sorriso de dentes alvos, os olhos ardendo febrilmente e uma expressão de puro prazer.
-Ei...parece que hoje dei a sorte grande – a voz era rouca e tremendamente sexy. - Me desculpe..mas não resisti a você. Aproximou-se mais..colando o corpo ao meu. Não é todo dia que se encontra um espécime como você..me diga como consegue ser tão humano e ao mesmo tempo tão demoníaco.? Pensando bem..não diga nada – beijou-me novamente e começei a ficar embriagado, mas resisti. Um pouco de distância não faria mal.
 - Para com isso! - Foi uma batalha conseguir me desvencilhar daquelas mãos e quase desisti. Você não pode chegar desta forma, me morder, e ficar aí como se nada tivesse acontecido. Nem sei o seu nome.
Estava me comportando como um idiota e sabia disso..mas o perfume daquela mulher não me deixava seque pensar direito. Invadia meus sentidos de um jeito muito..muito estranho.
 - Ah..quanta formalidade..- ela riu debochando da minha estoica tentativa de manter o controle. Nomes são tão fugazes..posso dar-me um nome agora mesmo e você não terá como provar se estou mentindo ou falando a verdade. - a maldita estava se divertindo às minhas custas..avançando em minha direção.
 - Fique onde está! Nem vem...olha..sei que aconteceu alguma coisa muito esquisita aqui e você vai me explicar direitinho quem é e o que quer.
 - Tenho mesmo que dar explicações? Seria tão mais divertido se você deixasse fluir o que sente – quantas mãos ela tinha? - parece que era um polvo..com muitos tentáculos porque sentia o seu toque em muitas regiões do meu corpo. Sufoquei um gemido.
- Já disse para parar cacete!! Quem diabos é você?!
- Ok...vou me apresentar já que dá tanta importância a isso. Meu nome é Alexia e sou uma visitante. Cheguei de viagem a pouco tempo e fiquei sabendo que havia uma “novidade” a solta pela cidade. Sim..eu sei o seu nome, sei quem você é e agora sei que é muito mais do que dizem por aí..tem um sangue delicioso Henrique! Se importa se eu experimentar mais um pouco?
- Tá louca é? Nem a pau que você vai me morder de novo. Sou idiota apenas uma vez. Pois bem.já que sabe quem eu sou...podemos passar para a próxima fase. Porque me mordeu? É hábito vampiros sairem por aí mordendo uns aos outros?
- Uhhh..tão enfático...- continuava a brincar comigo como um gato que brinca com sua presa.- Não..não é hábito, mas sou uma fetichista..e não resisti. - Novamente as mãos no meu peito..deslizando suavemente e arranhando..Tem ainda muito o que aprender mocinho..e me daria imenso prazer se aceitasse algumas aulas minhas..tenho certeza de que nos divertiremos muito. - dizendo isso – pegou um cartão e me entregou. Vá até minha casa e conversaremos com mais calma. Agora tenho que ir..passei por aqui só para conferir as novidades..tenho que agradecer ao Maurício pelo convite. Deu-me então outro daqueles beijos de tirar o fôlego e partiu...
Fiquei ali com o cartão de visitas na mão..nem olhei..acabei guardando-o no bolso da jaqueta. Tentava entender o que tinha acontecido ali..mas a realidade suplantava toda a lógica do meu arsenal. Porque estava me sentindo daquele jeito? Porque estava quase eufórico? Como ela havia mexido tanto assim comigo?
Só me restava esperar por uma oportunidade de revê-la. Fiquei no bar esperando meu irmão enquanto tomava uma cerveja. Esperei por mais de 2 horas e quando, finalmente ele apareceu, vinha todo satisfeito...eu não havia reparado em como Yuri estava diferente..algo nele estava mudando e de forma muito rápida. Mais um ponto de interrogação na minha mente..mas naquela noite não tinha condições de ficar pensando muito. Me sentia leve e ao mesmo tempo esgotado..
- Bem..acho que podemos ir Yuri..tenho que descansar um pouco.
- Cara...você tá com cara de quem comeu e gostou muito hein? Parece até que andou usando alguma coisa..tá brisado.
- Fala isso porque ainda não se olhou no espelho irmãozinho....

Ele apenas soltou uma gargalhada. Naquela noite muitas coisas estranhas tinham acontecido, mas eu não queria analisar nada..só queria minha cama, só queria fechar os olhos e relembrar meus momentos com Alexia. Talvez eu aceite o convite.  

segunda-feira, 4 de maio de 2015

O círculo





São Paulo 04 de fevereiro de 2011.


Círculo Interno...o nome me soou como sendo algo realmente grande. Pensei logo naqueles filmes todos que já tinha visto. Será que iria parar em alguma reunião com os manda-chuva do pedaço? Se existisse alguém que soubesse do que se tratava esse tal “círculo” esse alguém se chamava Moacir. Peguei a moto e fui até o apartamento do velhote. Não tinha tido tempo de ficar praticando telepatia. Nem tempo nem com quem treinar. O jeito era apelar para o bom e velho porteiro e seguir a forma clássica de chegar na casa de alguém sem ter sido convidado.
O porteiro demorou a me mandar subir, acho que tomei uma canseira de uma meia hora. O velhote devia estar ocupado ou talvez tivesse perdido as pantufas em algum lugar e não quisesse me receber descalço.
Não sei porque não trocavam o elevador daquele prédio. Elevadores de alavanca são lentos e muito barulhentos. Talvez fosse uma forma de cultuar o jeitão decadente dos anos 20 ou coisa assim,mas que aquilo era estranho era. Assim que o elevador chegou ao andar a porta se abriu e Moacir fez com que eu entrasse. Pela segunda vez me senti estranho naquele lugar. Era como se entrasse em uma outra dimensão.Sentia o peso de mil anos ali..cheiro de biblioteca e naftalina.
 - Como vai Henrique, desculpe-me por fazê-lo esperar, deveria ter me avisado de sua visita. Não usa telepatia.?
Cocei a cabeça meio sem jeito. Era difícil admitir que além de não usar a telepatia, não sabia como fazê-lo. Mais um ponto negativo para minha criadora. Tinha sido relapsa não me ensinando.
- Na verdade não sei como fazer isso, Clara não me ensinou.
- Não me diga – fez um gesto de desagrado – Que grande falha a dela. Mas podemos corrigir isso se for de seu interesse. A telepatia, meu caro, é de grande utilidade para nós. O uso dela pode vir a ser crucial em alguns casos. Muito mais do que um celular. Creia-me. Mas me diga..o que o traz à minha casa?
Contei então sobre minha ida ao Madame e o encontro com Mauricio. Moacir ficou intrigado com o fato de Clara ter ido embora, abandonando seu território.
- Isso, Henrique, não é usual. Vampiros dificilmente deixam seus territórios, ainda mais quando esse território é um dos mais disputados da Cidade. A região central é, sem dúvida alguma, a mais desejada. Ela deve ter tido um grande motivo para ir embora desta forma.
- Se teve ou não motivo isso não me importa mais. A única coisa que me interessa é saber porque serei convidado para conhecer esse tal “circulo interno”. E qual a razão da minha “notoriedade” entre os vampiros.
Moacir riu e até que comecei a simpatizar com aquela figura, mas estava longe de me sentir seguro em sua presença.
- Realmente você tem muito o que aprender meu jovem. Veja bem, vampiros como você são tão raros quanto a Painite.
- Pain..o que?
- Painite Henrique...Painite. É uma pedra preciosa extremamente rara. O primeiro exemplar foi encontrado em 1950 em Burma, após isso, apenas mais duas pedras foram achadas.
- Ah tá...mas porquê isso? Porque sou tão raro?
- Por causa da sua “matriz” genética. Como é “cria” da Clara..você traz características singulares meu jovem. Já deve ter reparado, por exemplo, que tem aparência de uma pessoa normal e que seus órgãos funcionam, muito embora de forma mais lenta.
- Mas isso não acontece com todos?
- Não..eu por exemplo, estou efetivamente morto. Não como, não bebo e não respiro.
- Ah tá..e isso tem a ver com Lilith não é?
- Digamos que sim. Eles, do círculo interno, devem estar querendo comprovar a veracidade dos boatos que estão correndo por aí.
- Que boatos?
- Quanto a isso já não posso dizer, terá que esperar o convite chegar.
Fiquei frustrado. Tudo era muito vago. Sabia da minha suposta “origem” mas qual era a efetiva diferença entre mim e os outros, além é claro, de não parecer um vampiro.
- Me diz uma coisa Moacir, se todos os vampiros descendem de Lilith, porque uns são mortos-vivos e outros não?
- Todos são mortos..apenas os raros é que não são. Na verdade Henrique, até mesmo a Clara que foi criada, supostamente, por Lilith está morta. Até mesmo ela, que dizem ser cria direta, não tem suas habilidades. Você intriga até mesmo nossa comunidade científica. Como já disse..é extremamente raro. Não me lembro de ter ouvido falar em algum caso parecido.
Legal! Agora eu estava ainda mais confuso. Uma aberração entre aberrações.
Antes de ir, recebi aulas de telepatia. Foi a coisa mais natural do mundo dominar aquela habilidade, como se eu já soubesse..e tivesse apenas que relembrar. Moacir ficou espantado com minha velocidade de aprendizado e creditou isso ao fato de eu ser algo raro.
Quando fui pegar minha moto, notei que me observavam de longe, mas já estava acostumado com isso. Montei na moto e parti. Não estava disposto a procurar por nenhum tipo de contato naquela noite. Eu tinha marcado uma partida de vídeo-game com meu irmão e não iria me atrasar.


terça-feira, 21 de abril de 2015

Dias de Bon Vivant


São Paulo, 26 de janeiro de 2011.

Como é fácil acostumar-se com o que é bom não é verdade? Foi simples estabelecer uma rotina com minha volta para casa. Saia todas as noites para caçar. Tive que me virar para estabelecer um outro modus operandi. É mais fácil para um vampiro caçar entre os góticos, eles são fascinados pelo nosso mundo e acabam caindo na teia de livre e espontânea vontade. Alphaville não é bem um reduto de garotas pálidas e vestidas no bom e sexy estilo Gotic Doll. O que eu mais via eram ratas de academia, patricinhas vestidas na ultima moda. Não era algo que me incentivava,na verdade sempre odiei as pattys..são insossas, cabelo sempre em ordem, roupa sempre em ordem..tudo muito em ordem para o meu gosto. Mas como é necessário para um vampiro comer e como por aqui não tinha nada além de comida macrobiótica tive que me adaptar. Tornei-me então o gostosão da academia. Muito engraçado isso na verdade. Até pouco tempo atrás eu seria literalmente ignorado e agora as garotas chegavam a brigar por minha causa. Eu tinha um imenso estoque de comida politicamente correta e congelada à minha disposição.
Pouco via meus pais, depois do incidente do sequestro viajaram para a Europa. Não estarem em casa não era novidade nem para mim nem para ninguém. A única coisa que tinha mudado é que ganhei uma moto e tive meu cartão de crédito restabelecido e sem limite. Uau!!! O velho foi generoso comigo, quase chorei de tanta emoção. Maldito..pensava que todos tinham preço, inclusive eu. Mas quer saber? Iria aproveitar a generosidade ao máximo.
Dias atrás estava sem nada para fazer e sem vontade de ir até a minha geladeira particular, não tava mesmo a fim de nenhuma patricinha..tinha saudades das gurias maquiadas e pálidas do Madame,quem sabe se eu desse uma voltinha por lá. Clara tinha me avisado que não queria voltar a me ver, mas não tinha me proibido de caçar no Madame e também se tivesse feito isso eu não obedeceria. De regras já chegavam as que tive de obedecer enquanto vivo e as que meu pai sempre me impôs.
- Vai sair Henrique? Yuri apareceu na porta – Que pergunta a minha né..é claro que vai sair. Posso ir junto? Me leva vai..só uma vez, juro que fico longe. Nem vou dar trabalho.
- Lá não entram menores Yuri, fica para uma próxima ok?
- Não preciso nem entrar..quero ficar só na porta. Cara isso aqui tá um tédio mortal, tõ de saco cheio de jogar e minha galera foi viajar, vai..deixa eu ir, juro que não vou atrapalhar.
Bom..não haveria mal nenhum em leva-lo. Ele ficaria lá fora..no bar, eu entraria, me alimentaria e pronto..poderíamos curtir um pouco no centro ou voltar para casa.
- Tá bom Yuri, vai se trocar que eu te espero. Hoje você vai junto comigo.
Se minha mãe soubesse que tinha levado Yuri no Madame teria um de seus surtos teatrais. Mas estava viajando e a Tiana não diria nada. Ela estava acostumada com minhas saídas e não via nada demais no fato de eu sair com meu irmão. Só implicava com o fato de eu sair sempre sem jantar.
Na garagem fiquei pensando se ia de moto ou de carro. Agora podia escolher..meu pai tinha liberado, também, o painel com as chaves. Olha só..eu tinha desde uma Ferrari a uma Mercedes SLK na minha mão..fora a minha moto é claro. Uma Harley. Falando em moto, juro que devolvi a que roubei na Praça da República. Pedi para um dos capangas, digo, seguranças do meu pai, leva-la até lá, orientei exatamente sobre o lugar onde ela estava. O dono deve ter ficado feliz. Decidi que ir de moto seria melhor. Muito mais rápido.
Com Yuri na garupa, rumei para o Madame. Gostava de lá. Tinha sido o primeiro lugar que eu frequentara e o lugar onde caçara pela primeira vez. Parei a moto em frente do outro lado da rua e dei uma olhada na fila. Clara não estava lá..fiquei aliviado,não queria nenhum conflito direto.
- Olha Yuri, fica aí..senta, pede um refrigerante e me espera. Volto logo ok?
- Refrigerante? - Não rola um vinhozinho não?
- Nem pensar moleque, é refrigerante pra você, não ouse pedir vinho porque vou descobrir e você tá lascado.
Dei um “croque” na cabeça dele e saí dando risada. Era muito bom ter meu irmão por perto. Me dava a sensação de família, de intimidade e eu gostava disso.
Fiquei na fila observando, escolhendo o melhor prato. Ah...daquilo eu gostava! Eram todas muito apetecíveis ao meu paladar. Tão diferente da minha comida congelada. Anotem aí..góticas são as melhores. Depois vem as bangers..são legais também. Só não queiram experimentar as pattys, não tem tempero algum..você quase tem que levar catchup e mostarda pro negócio ficar um pouco melhor.
Escolhi uma mestiça. Era linda mesmo. Cinta-liga! Eu piro em cinta-liga! E piro mais ainda em pernas bem torneadas. Tá achando estranho? Sou um vampiro, mas sou homem antes disso né? Tenho meus gostos bem definidos. Acho que isso nunca vai mudar. E viva o mundo das Gotic Dolls.
Estava “em casa” e o melhor..nem sinal da Clara. Meu “prato” estava lá..prontinho...ansioso pela minha aproximação..pude perceber pela aceleração do pulso da garota quando sorri para ela. Não seria nada difícil, talvez eu nem precisasse hipnotiza-la afinal de contas...Que ideia idiota a minha, é claro que a hipnose seria necessária. Regra número 1 – mantenha-se sempre incógnito, não importa o que acontecer.
Passei por ela em direção ao bar, dei uma olhada e sorri. Isca lançada. Peguei uma cerveja e fiquei lá no balcão, só olhando para a garota. O olhar de um vampiro pode causar dois efeitos em sua vítima: ou sentem-se observados e incomodados ou então excitados. Não existem muitas variações. No caso da mestiça, ela estava evidentemente, excitada. Pulsação acelerada e o doce aroma de mulher. Isso impregna o ar. Uma pena que vocês mortais tenham perdido a capacidade de detectar o real aroma de uma mulher. É algo incrível, altamente afrodisíaco se querem mesmo saber. Se meu irmão não estivesse me esperando fora do Madame, eu teria tido um imenso prazer em arrastar a situação pelo máximo de tempo, mas como tinha prometido voltar logo, me apressei em caçar o mais rápido que pude.
Cheguei perto da garota e sussurrei em seu ouvido – Me siga! Os comandos mentais funcionam muito melhor quando a vítima está predisposta. É por isso que gastamos um tempo no jogo da sedução. Me dirigi, então a um nicho que fica no jardim. É como uma tenda onde os casais podem desfrutar um pouco mais de intimidade. Assim que a mestiça chegou, não perdi tempo. Passei a beija-la, provando a doçura daqueles lábios, me deliciando com o sabor oriental. Sim..cada mulher tem seu cheiro, seu sabor, nenhuma é igual a outra..todas tem uma assinatura própria e eu estava me tornando um verdadeiro somelier, nesta arte. Dei a ela bons momentos e antes de mordê-la, expedi o comando que sempre usava. Não esqueceria o antes..eu me tornaria uma constante em seus sonhos. Faço isso porque gosto de voltar a degustar os pratos que já provei. É um costume meu. Ah..que sangue doce! Que bouquet maravilhoso. Estava tão entretido que não percebi que a cortina se abriu e alguém nos observava. Era um cara e ele olhava para mim sorrindo divertido, como se não estranhasse minhas atitudes. Fez um gesto com a mão, uma espécie de cumprimento. Fechou a cortina e saiu.
Merda!! Eu nunca tinha sido pego assim no flagra e quem era aquele cara afinal de contas. Larguei a mestiça e antes tive o cuidado de fechar a ferida no pescoço. Queria prolongar um pouco mais o prazer dela, mas agora teria que ir atrás dele. No jardim não estava, nem na pista. Subi as escadas e o procurei no salão. Foi quando senti uma mão no meu ombro.
- Excelente meu caro, apreciei deveras seu método. Faz muito tempo que não vejo ninguém caçar com tanto requinte. Está de parabéns.
- Quem é você? Aquela mão no meu ombro não me agradou, mas não poderia protagonizar nenhuma cena ali dentro.
- Ah..que falta de educação a minha. Meu nome é Maurício – prazer em conhecê-lo. Mas diga-me..o que faz caçando em meu território? Não sabe que isso é proibido?
Território dele? Como assim? Aquela região central pertencia à Clara e de uma certa forma, a mim também.
- Até onde eu sei, essa região é da Clara.
- Era..meu caro, era do verbo não é mais! Clara foi embora há uma semana, portanto isso tudo agora é meu, porém tenho algumas novidades para você.
- Que novidades? Do que você está falando? Nem sabe que sou eu.
- Tão inocente...ah..o frescor da juventude..tenho saudades disso às vezes sabia? Senta aqui garoto – apontou para uma cadeira – me escute porque não tenho por hábito ficar me repetindo certo? Não sei o que a imbecil da Clara te ensinou, mas pelo visto não foi muita coisa. Cada um de nós pertence a essa maldita sociedade, ninguém aqui é realmente livre. Existem os que mandam e existem os que obedecem. Você e eu somos do tipo que obedecem ok? A grande novidade é que os lá de cima querem falar com você. Sendo cria da Clara você ganhou notoriedade. Ninguém esperava que ela fosse criar alguém, na verdade todos pensávamos que ela não pudesse, por conta da forma como ela própria “nasceu”. Agora estão te chamando aos círculos internos. Deveria sentir-se envaidecido por isso. Ganhou na loteria sem ter, ao menos jogado. Agora por favor, retire-se da minha casa e, se possível não volte mais. Não gosto de dividir nada com ninguém, mas no seu caso, se decidir voltar,  serei obrigado a fazer concessões.
Sai do madame meio desnorteado. Muita informação em pouco tempo. Que diabos significava o tal “circulo interno”? Teria de descobrir. No dia seguinte iria procurar o Moacir, ele, com certeza saberia me explicar o que estava ocorrendo.
Do outro lado da rua, sentada junto ao meu irmão, vi uma loira do tipo “Vim parar o trânsito”. Ela acariciava o pescoço de Yuri com olhos gulosos demais para o meu gosto. Atravessei a rua rápido e me aproximei da mesa onde os dois estavam. Não tive dúvida das intenções da garota ao reparar em seus olhos. Era uma vampira e meu irmão seria a “entrada” para o prato principal.
- Caí fora já! - ameacei pronto para uma briga se fosse necessário.
- E se eu não quiser sair? Vai me obrigar? - estava na cara que era uma novata, muito mais novata do que eu!
- Vou sim, não tenha dúvidas quanto a isso. Aproveita que ainda estou de bom humor e caí fora daqui – avermelhei os olhos por uma fração de segundos e ela logo entendeu. Saiu xingando, dizendo que iria se vingar, que eu não perdesse por esperar.


Quase tive de esbofetar o Yuri para tira-lo do transe. Que merda. No tempo da Clara não era permitido caçar fora do Madame. O tal do Mauricio iria transformar aquela área em um ninho, um ninho de víboras que iriam pica-lo assim que pudessem, mas ele que se danasse. Tratei de tirar meu irmão de lá o mais rápido possível. O mais engraçado era olhar para a cara de bobo sorridente que ele estava fazendo. Difícil conter o riso nestas circunstâncias. Acho que o garoto vai  se lembrar da noite por uns bons tempos ainda.

E a fera dá as caras





São Paulo, 27 de dezembro de 2010.



Depois que deixei meu irmão e a Tiana na cozinha, subi para o meu quarto e fiquei ali..durante uns bons minutos, apenas observando as minhas coisas. Podem até me chamar de emotivo, mas estava realmente com saudades do meu quarto. Vampiros sentem essa necessidade. A de ter algum lugar para voltar. Isso não é muito diferente de vocês humanos. Quantas e quantas vezes viajam mas depois, sentem a vontade de estar de volta ao lar? Um lar é o local onde escrevemos nossa história, onde todas as nossas impressões ficam marcadas. Onde guardamos nossos tesouros materiais e para onde sempre voltamos quando nos sentimos sós ou fracos.
Fui tomar banho e,pela primeira vez em três meses, reparei na minha imagem no espelho. Tomei um susto. Aquele ali não era o Henrique velho de guerra. Era outro cara! Eu pensava que todo vampiro ficava pálido, cinza, com olheiras, cara de gótico em fim de carreira, mas eu não! Fui olhar de perto minha imagem. De cara magro, tinha virado um rato de academia. Tava forte mesmo! Fiz até aquela pose de "Johny Bravo" – Tá vendo aquele cara? Foi por ali! Músculos definidinhos..barriga tanquinho. Uau!!! Esfreguei os olhos. Seria uma miragem? Não estava com cara de “data de validade vencida”. Eu era a imagem da saúde e disposição. Mas que merda era aquela? Meus cabelos tinham crescido um pouco mais também e os olhos..ah..os olhos eram algo a parte.Estranhos na melhor das hipóteses. Eu sempre tinha curtido meus olhos, na verdade eram a única coisa que curtia na minha pitoresca aparência. Minha mãe costumava dizer que eu tinha herdado os olhos do meu avô. Eram da cor do mar revolto segundo ela. Um verde meio esquisito..cor de burro quando foge. Mas era o que me salvava em minhas modestas excursões no universo feminino. - Nossa..elas diziam..você tem olhos tão lindos” Mas também era só...eu era o cara dos olhos bonitos.
Aquilo me intrigou..Clara era linda..mas era pálida..quase acinzentada. Moacir também era pálido, enrugado feito maracujá de gaveta. Puxei pela memória tentando lembrar se tinha visto outro vampiro. Ah...as mulheres do primeiro dia..eram pálidas mas não eram acinzentadas..mantinham um frescor de vida. Mas porque? Alguns vampiros seriam diferentes de outros? Anotação mental – Preciso conhecer mais vampiros para ter uma melhor base de análise.
Depois do meu momento “Narciso” tratei de tomar meu banho, trocar de roupa e descer para encarar o Yuri. Tinha muitas explicações a dar e nenhuma ideia de por onde começar.
O encontrei calmamente sentado na sala de jogos. - ser rico tem destas coisas, uma sala para cada coisa, meu pai tinha até sala de meditação. Estava jogando GTA e me aproximei querendo jogar também. Ele desligou o console para minha decepção. Colocou o controle de lado, me encarou e com toda seriedade que lhe era peculiar, disparou o morteiro em minha direção.
Eu só não esperava que o “morteiro” fosse real.

Mama I'm Coming Home



São Paulo, 25 de dezembro de 2010


Ainda bem que vampiros despejados não tem muita coisa para carregar. Na verdade eu não tinha nada mesmo..a não ser minha jaqueta. Tinha deixado tudo para trás..minha casa, meus livros e, principalmente meu irmão. Havia dias em que o pensamento no meu irmão vinha me incomodando. Como ele estaria? Decidi procura-lo, talvez até pegar algumas coisas minhas, meus pais, só para variar, deveriam estar viajando, não haveria problema. O único problema seria explicar ao Yuri que o irmão dele agora era um vampiro.
Não daria para ir a pé até Alphaville, seria uma caminhada e tanto e mesmo não me cansando, gastaria muito tempo. Pegar um ônibus? Não..fora de cogitação, iria demorar do mesmo jeito. Um táxi então? E pagar com o que? Eu não sabia o que era ter grana mais...tinha até me esquecido que dinheiro era algo necessário, mesmo para um vampiro. Naquele momento percebi que tinha levado, até então, uma vida de sem teto, de mendigo..como um rato de beco me alimentando apenas de sobras que ninguém mais queria. Não..não era isso que eu queria para mim. Nunca me importei com dinheiro, nunca me importei com status, mas também não levaria minha eternidade como um João Ninguém.
Novamente pelos lados da Praça da República e pensando em como chegar em Alphaville, foi quando a vi ali..parada, linda! Setecentos e cinquenta cilindradas de pura beleza! Porque não toma-la emprestada? Como disse anteriormente, valores morais, ficam para trás quando se tem uma eternidade pela frente.
Ok..pegar a moto. Mas como? Eu não tinha a mínima ideia de como fazer aquilo, nunca aprendi a técnica de ligação direta. Resolvi tentar..quem sabe teria herdado algum “combo” de habilidades, nunca se sabe não é mesmo? Tanta coisa louca tinha acontecido em tão pouco tempo que não duvidava de mais nada.
Outro ponto seria não chamar a atenção. Praça da República não é o lugar mais tranquilo do mundo, ainda mais naquele horário. Me aproximei da moto e fiquei ali..olhando..olhando..com cara de cachorro que caiu do caminhão de mudança.
 -Ei cara..tá olhando o que? Perdeu alguma coisa por aqui? - Era um PM e gelei (um pouco mais). Nunca tinha me dado muito bem com os tais ratos fardados. Já tinha levado muito enquadro e levado nome de vagabundo. Mas tinha uma arma mágica – O nome do meu pai! Isso..o maldito nome e sobrenome do meu pai..isso resolveria tudo!!
- Na verdade – empostei a voz, tentando demonstrar segurança – perdi sim senhor – olhei para placa de identificação procurando o nome do dito cujo – Marcelo – esse era o nome. Perdi a chave da minha moto e agora temo que meu pai tenha de acionar o seguro.
- Ah claro..todo mundo perde chave de moto hoje em dia. Deixa de ser mané garoto. Mão pra cabeça. - Otimo..la vinha mais um enquadro, ainda bem que não tinha me livrado da minha carteira com os documentos. Fiquei ali..a imagem da inocência e passividade. Ele revirou o bolso da jaqueta, possivelmente à procura de drogas, e encontrou a maldita carteira. Procurou os documentos e voilá....as portas se abriram. Estampado no meu RG estava minha filiação..o nome do meu pai em letras maiúsculas!
Engraçado como o tratamento que recebemos varia de acordo com o status que ostentamos. Sempre tive nojo disso, mas naquela hora aprendi que isso vale ouro..muito mais que algumas notas de R$ 100,00. De um minuto para outro o pitt bull fardado, transformou-se em um poodle. Todo compreensão e civilidade.
- Me desculpe Senhor Henrique, mas sabe como é..tem um monte de ladrão de moto por aqui, só estava cumprindo minha obrigação – estava todo sem jeito, temendo, por certo, perder o emprego que lhe garantia uma existência de merda.
- Não tem problema soldado, eu entendo e até fico aliviado em ver um policial cumprindo seu dever com tanta competência, agora, por favor, poderia ajudar-me a resolver meu problema? Tenho que chegar em casa logo, senão perco o jantar na casa do Embaixador da Rússia e meu pai ficaria desapontado comigo. - Ah..a ótima representação do boyzinho nada a ver!
- Claro, claro..é pra já – e o PM fez a tal ligação direta na moto – jurei pra mim mesmo que iria devolve-la. Até então..lesar as pessoas não era algo que fazia parte do meu caráter.
Rapidamente, o motor da moto estava lá..roncando, eu acenando para o policial e agradecendo pelo fato de morar no Brasil..país onde nome vale mais do que documentos em determinados casos..ainda mais quando seu pai controla uma boa parte dos negócios desta gente. Saí dando gargalhadas, seria realmente muito fácil a partir do momento em que eu tinha aprendido mais alguns truques. Fiquei orgulhoso da minha performance e sequer me dei conta de que tinha dado mais um passo em direção ao meu verdadeiro despertar.
Cheguei rápido em Alphaville, mas agora era outra coisa. Parado defronte ao pórtico do condomínio onde morei minha vida toda, bateu a insegurança. E se o porteiro não me reconhecesse? E se meus pais estivessem em casa? E se o Yuri não estivesse? Merda!!! Porque as coisas não vinham com roteiro?
Bom..eu não poderia ficar ali parado o resto da vida, tinha que arriscar. Liguei a moto e me dirigi à portaria. Logo o funcionário veio saber de quem se tratava e, para minha surpresa
- Boa noite Henrique, faz tempo que não te vejo por aí..foi viajar?
Esqueci de mencionar que sempre fui o queridinho dos porteiros, o cara rico e gente boa, que os cumprimentava, levava lanche, dava presente de Natal..a antítese dos idiotas de Alphaville que tratam funcionários como lixo..com os malditos narizes sempre em pé..achando que são a “oitava maravilha do mundo”.
- É..fui viajar sim Marcos, cheguei hoje e estou louco pra tomar um banho..- sorri meio amarelado, morrendo de medo que ele percebesse minha palidez e roupas sujas.
- Ah..deve estar louco mesmo pra chegar em casa né? Teus pais viajaram..só o Yuri está lá, olha..leva essa correspondência? O Yuri esqueceu de pegar da ultima vez..
Peguei as cartas. Ele não tinha desconfiado de nada..então minha aparência não tinha mudado muito. Na verdade eu nunca tinha reparado em como havia ficado depois da transformação. Não tinha tido curiosidade de me olhar no espelho e não tinha visto ainda o que acontecera comigo.
Subi a rampa que levava à minha casa. Meus pais sempre foram excêntricos no que se relaciona à Arquitetura..e minha casa, longe das linhas modernas, era uma réplica de uma mansão típica da Lousiana. Sempre gostei daquela casa..toda pintada de branco..imponente, com vários “chorões” plantados no quintal..só faltava mesmo o lago com crocodilos. Tinha dado esse ideia para minha mãe mas ela apenas riu de mim.
Certo..cheguei..mas e agora? Entro..toco a campainha, chamo a empregada?
Vasculhando o bolso da jaqueta, encontrei a minha chave. Será que ainda funcionava? Lembrei que meu pai tinha dito algo sobre trocar as fechaduras comuns pelas digitais.
Tentei com a chave e...nada! Agora era apelar para o intercomunicador. Quando ia apertar o botão, a porta se abriu e dei de cara com o meu irmão! O porteiro tinha avisado da minha chegada!
Agora vou me dar ao luxo de ser sentimental ! Foi o abraço mais reconfortante que ganhei em toda minha vida .
Meu irmão era a única pessoa com a qual realmente me importava naquela família e, vê-lo foi uma alegria genuína!
- Cara...você voltou! Aonde estava Henrique? A mãe até pensou em colocar a polícia na tua cola. Você some, não dá notícias, o pai tá puto contigo!
- É uma longa história Yuri, mas estou de volta e preciso de ajuda!
Já estávamos na sala e foi somente aí que meu irmão foi olhar para mim direito. Olhos atentos fizeram um verdadeiro scaneamento de mim..podia ver a surpresa no rosto do meu irmão, mas ele não falou nada..não disse absolutamente nada e isso me deixou nervoso.
- Deve estar com fome né? Olha a Tiana fez um empadão de camarão que tá uma delícia. Vem..você curte o empadão..a gente come, tu sobe, toma um banho e depois a gente conversa beleza? Ah...e antes que eu me esqueça..vai ter que explicar o que aquela moto tá fazendo parada aí na frente.
Tinha me esquecido de como era bom estar em casa. Até então eu não dava valor a nada disso, o quanto mais longe estivesse, melhor. Mas ter passado aquele tempo no Mausoléum com Clara, tinha mudado a minha concepção sobre o que é ter, de fato, um lar. Na cozinha, comendo o tal do empadão (lembrem-se eu disse que ainda posso comer) olhando a Tiana lavar a louça, me senti bem..tão bem que até esqueci do que eu era..de quem eu era.
- Henrique – a voz da Tiana parecia com a daquelas coristas de filmes antigos..ela deveria se arriscar a cantar blues..iria fazer sucesso - “cê” tava onde menino? Fiquei preocupada, não ligou..não deu notícias, tava enroscado em alguma encrenca?
Tiana estava com a gente desde que eu nasci, tinha sido uma espécie de mãe para mim e para meu irmão. Como nossos pais nunca estavam em casa, o único carinho que recebemos sempre foi o dela. Eu adorava aquela mulher, era pra ela que sempre corria quando estava em apuros.
- Não..eu estive viajando Ti..não precisa ficar preocupada tá? Tô de volta são e salvo.
- Sei sei..tava em alguma 'acadimia”? Tá todo fortinho Henrique!
Eu “fortinho”??!! Onde? Sempre fui um “pau de virar tripas”.
-Verdade..- Yuri concordou – você tá todo marombado..andou tomando bomba? Ninguém cresce deste jeito em 3 meses – fala a verdade, o que andou aprontando?

Realmente aquilo era novidade pra mim..não tinha reparado em nada, estava apenas preocupado em como sobreviver, de quem me alimentar, nem espelhos tínhamos por perto e sempre fui desencanado com relação a aparência. Terminei com a torta, me levantei e declarei que iria tomar um banho, deixando para trás um irmão e uma empregada curiosos.  

Apocalipse Now!!



São Paulo, 23 de dezembro de 2010

 -Clara...porque você tem agido desta forma? O que aconteceu? - Eu tinha acabado de acordar e ela já estava prontinha para sair – Não caçamos mais juntos, você mal fala comigo. Que diabos está havendo aqui?
 - Quer saber mesmo? Ela virou-se para mim, os olhos brilhando vermelhos, os caninos proeminentes – estava em postura de ataque e eu não entendia o motivo.
 - Quero..quero sim! Estou de saco cheio destas tuas flutuações de humor sabia? No começo é até bonitinho mas não nasci para saco de pancadas, nem seu nem de ninguém! Ou você começa a me respeitar ou...
Foi tudo muito rápido – Clara avançou para mim. Estava furiosa. Só deu para me defender. Não queria uma briga..não estava preparado para o que aconteceu. Ela estava possessa, queria mesmo me machucar, me destruir.
Consegui, não sei como, interceptar seus golpes e evita-los. Consegui imobiliza-la e fiquei surpreso com isso. Clara era muito mais velha que eu e, portanto, muito mais forte e experiente. Tentei acalma-la mas livrou-se do meu abraço com um safanão..deixei-a livre. Não queria mais aquele tipo de coisa. Ela sentou-se no túmulo que lhe servia de cama. Pude ver que estava confusa, irritada e frustrada.
 - Quer saber Henrique – olhou pra mim e desta vez seus olhos estavam azuis..os mesmos olhos que tantas vezes eu tinha admirado na foto. - Acho que está na hora de você ir. Não te quero mais aqui. Você pergunta demais, questiona demais, quer saber coisas demais. Me cansei deste teu jeito. Me arrependo de tê-lo criado. Quero que você vá embora e nunca mais volte aqui!
Peraí..eu estava sendo despejado? Escorraçado pela minha criadora? O que havia feito de tão grave?
_ Mas porque Clara..o que eu te fiz? Até outro dia atrás a gente se dava bem..foi a ida a casa do Moacir não foi? Mas porque? O que ele disse que você já não soubesse? O nome Lilith te incomoda tanto assim? Podemos descobrir juntos..olha eu....
 - Não..não quero mais saber desta história Henrique, me deixe em paz! E se quer um conselho: Fique longe deste nome, não procure por nada..esqueça! Vou sair e, quando voltar, não quero mais te ver aqui entendeu?
Então era isso? Agora não tinha nem um lugar para ficar, estava solto no mundo por minha conta e risco. Aquilo tudo era muito estranho..difícil de engolir. A simples menção ao nome de Lilith e pronto..tudo tinha desmoronado. Vou chegar ao fim disso..vou buscar respostas. Não mais pela Clara, mas por mim mesmo, preciso saber o porquê, tenho certeza de que neste mato tem um coelhão enorme. Vou caça-lo e vou encontra-lo. De uma forma ou de outra.

Apenas pensamentos.




São Paulo, 19 de dezembro de 2010



Desde o dia do encontro com o Moacir, Clara vem se mostrando muito diferente. É como se algo a tivesse irritado profundamente. Pensei que ela já soubesse de sua origem afinal de contas foi ela mesma quem mencionou o nome de Lilith  pela primeira vez. Disse inclusive, ter feito várias buscas e pesquisas. Então porque esse comportamento? Estou começando a achar que alguma coisa não bate nisso tudo. Um espelho se quebrou e a imagem que vejo agora é muito diferente da que eu cultivei por algum tempo.
Mesmo agora, ela não está, saiu sem sequer me avisar. Já não quer minha companhia e, sinceramente, agradeço por isso. Também tenho preferido estar sozinho, buscando minha própria forma e essência, minha existência não pode ser apenas o acordar, caçar e voltar a dormir para, no dia seguinte, repetir a mesma coisa. Que importa estar no tal “topo da cadeia alimentar” se tudo se resume a isso: caçar.
Resolvi que vou procurar pelos outros e que se danem todas as recomendações de não fazê-lo. Porque me esconder? Não sou um rato para ficar me esgueirando pelos becos, isso é ridículo.
Ontem, quando saí para me alimentar, senti que me observavam, pude identificar uma presença poderosa mas não consegui encontrar a pessoa. Não imaginam como é frustrante ter habilidades e não saber como usa-las. Ter um “mestre” e não receber dele nada mais do que dicas de como alimentar-se melhor e quais os tipos de sangue mais agradáveis.
Tenho feito algumas descobertas interessantes, comprovando que algumas lendas, de fato, tem sentido. Descobri que, mesmo tendo um estômago morto, eu posso me alimentar para dar à minha interpretação de vida um tom mais convincente. A comida em si não tem gosto nenhum, perdemos o paladar, meu organismo não está totalmente morto. Não entrei em necrose, meus órgãos ainda funcionam mas de uma foma muito mais lenta. É como se eu tivesse me transformado, do dia para a noite, em um hindu com técnicas de catatonia avançada.
Um outro ponto que anda me incomodando bastante. Não estou a fim de passar o resto da eternidade neste Mausoléu. Vendo o apartamento do Moa, senti vontade de ter um lugar mais confortável para viver. Sinto falta do meu computador, do meu console, dos meus jogos e dos meus livros. Não acho que para ser um vampiro eu tenha que abdicar destes prazeres. Decidi que vou procurar um outro lugar. Se a Clara quiser vir, ótimo, se não quiser, terei de ir sozinho.
Engraçado como as coisas mudam em tão pouco tempo. Outro dia mesmo, eu era apenas um cara apaixonado, capaz de fazer qualquer coisa pela mulher dos meus sonhos..mas isso me parece algo muito distante agora. Acho que nossos sentimentos mudam um bocado depois da transformação. Como se a trava do “politicamente correto” ou do comodismo já não existissem mais. Vampiros são humanos sem máscaras sociais, apesar de usarmos muitas de acordo com nossa conveniência.